Todo mundo tem um plano, até que…

O título deste artigo é baseado na icônica frase do ex-pugilista, para muitos o maior de todos os tempos, Michael Gerard Tyson, o grande Mike Tyson. Na frase original Tyson declara:

Everyone has a plan until they get punched in the mouth.”

O que em minha tradução livre e, de certa maneira poética, seria algo como: todo mundo tem um plano, até que leva um tapa na cara da vida.

Já falei em alguns outros artigos meus pelo LinkedIn e no próprio blog da Guide Life da máxima importância da construção de um plano financeiro estruturado, com objetivos bem definidos e integrados ao contexto e aspirações de quem irá executá-lo.

Até aí tudo muito bonito, tudo muito legal, estamos seguindo nosso plano, nos preparando para o futuro, para o momento que resolveremos diminuir o ritmo, prestes a executar o combinado, o planejado, quando, de repente, nos lembramos da frase do Tyson e a vida nos dá um verdadeiro soco na cara, uma puxada de tapete das boas e, à medida que vamos envelhecendo, vemos que talvez aquilo que foi planejado, não foi tão bem planejado assim.

Nos vemos expostos a riscos que não conhecíamos, e estamos mais velhos e não tão dispostos a grandes emoções causadas por essas mudanças.

Este meu mais recente artigo busca exatamente entender os riscos existentes na vida pós-plano financeiro, justamente no momento de execução do planejado. Vou procurar focar no tema dos riscos atrelados ao envelhecimento, bem como nos preparar para questões comportamentais inevitáveis na fase mais avançada da vida. Estes novos fatores de risco, em sua maioria, cognitivos e comportamentais, podem dificultar e muito a vida dos já aposentados.

Preparados para tentar entender como se esquivar destes socos da vida? Então me acompanhe.

Riscos comportamentais de idade avançada

O curso natural da vida é de que, com o passar dos anos, nos tornemos mais conservadores. É simplesmente intuitivo. Basta conversar com nossos avós, uma espécie de instinto de sobrevivência, é algo que acadêmicos em finanças afirmam ser o fenômeno da preferência pela certeza, que se intensifica ao passo que atingimos a senioridade.

Além da preferência pela certeza, outra característica que cresce quando envelhecemos, mais especificamente em relação a nossas finanças, é o comportamento míope, que é o aumento da preferência por ativos mais conservadores, correlacionada ao aumento da frequência com que observamos os retornos de nossos investimentos.

Quando envelhecemos, ou estamos muito perto do momento de se aposentar, costumamos nos atentar mais para os retornos de nossas aplicações de forma a evitar maiores sustos ou imprevistos, consequentemente buscamos por ativos mais conservadores. Uma forma de defesa, de prevenção.

Outro fator que modifica quando se atinge a fase mais madura da vida é o capital humano, que decai drasticamente conforme ganhamos mais idade. Uma defesa natural para inibir a perda de capital humano é o que chamamos de balanceamento holístico de portfólio, que inclui um balanceamento de nossos ativos financeiros e não financeiros, a fim de prover mais segurança ao patrimônio total.

Concluímos de uma forma geral, que à medida que envelhecemos, crescem: a preferência pela certeza e nossa aversão a perdas, de maneira muito mais significativa em comparação a quando somos jovens. Uma vez que os primeiros estão mais inclinados à manutenção do patrimônio conquistado e os segundos objetivam naturalmente o crescimento de seu patrimônio.

Na prática, o manual de planejamento financeiro de aposentadoria prevê, como tratamento a estes fatores naturais do envelhecimento, a diminuição planejada no portfólio dos ativos de maior risco (renda variável), ao passo que se aumenta a alocação daqueles ativos menos arriscados (renda fixa). Trata-se de uma receita mais segura de inibir os riscos de idade avançada, principalmente a perda de capital humano e o encurtamento do horizonte de investimentos.

Esta prática conforme prevê o manual não é inquestionável, existem outros métodos e recomendações para este momento da vida, mas isso será assunto para outro artigo.

Riscos cognitivos de idade avançada

Os riscos comportamentais relacionados a preferências infelizmente não são os únicos tipos de risco associados ao envelhecimento.

Ficar mais velho implica acima de tudo passar por mudanças físicas e mentais. Há, aqui, o que os estudiosos do assunto chamam de riscos de perdas cognitivas naturais. E não são poucas as perdas cognitivas relacionadas ao envelhecimento: menor raciocínio indutivo, redução da orientação espacial, queda da percepção de velocidade, além de menores habilidades numéricas e memória verbal.

Estas perdas cognitivas têm seus primeiros sinais percebidos a partir dos 45 anos de idade, e começam a declinar mais rapidamente a partir dos 65. No tocante aos investimentos, a redução de habilidades numéricas é o risco cognitivo mais prejudicial, a partir dos 65 anos, essa habilidade cai drasticamente e está intimamente ligada ao baixo retorno do portfólio de pessoas em idades avançadas, principalmente em relação aos ativos de renda variável.

O gráfico abaixo mostra a velocidade de queda de duas habilidades cognitivas com o aumento da idade, a saber: o reconhecimento de palavras e habilidades numéricas.

No entanto, há aqui um ponto de atenção, um agravante dos riscos cognitivos do envelhecimento sobre patrimônio e investimentos. Indivíduos mais velhos demonstram um nível constante de confiança em suas habilidades numéricas, apesar do já comprovado declínio das mesmas.

O problema neste tipo de risco, não se restringe apenas a dificuldade de reconhecimento em habilidades numéricas, mas na verdade, idosos demonstram ter uma resistência em reconhecer as perdas cognitivas como um todo. A meu ver, é aí onde reside o perigo, onde muito provavelmente, caso nada seja feito, veremos acontecer a profecia do Mike Tyson.

Como atenuar estes riscos?

Dado que envelhecer é inevitável, bem como os riscos comportamentais e cognitivos até aqui apresentados, nos resta não apresentar uma solução mágica de exclusão destes riscos, mas sim apresentar maneiras de como atenuar estes riscos ao patrimônio financeiro associados ao envelhecimento. Como o planejador financeiro deve agir e preparar seus clientes para essa fase tão importante da vida.

O primeiro passo é manter uma boa relação cliente-planejador, acima de tudo uma relação transparente. Um serviço bem desenvolvido de planejamento financeiro inclui maneiras de como cliente e planejador podem trabalhar juntos para superar os inevitáveis riscos cognitivos e comportamentais associados a idades avançadas, aumentando a probabilidade de que clientes atinjam seus objetivos financeiros e de vida.

Mas como realizar este trabalho conjunto na prática?

O comportamento míope pode ser atenuado reduzindo a frequência a qual os retornos de portfólios são checados pelos clientes, o mantra é diminuir a ansiedade.

Ao invés de aferir os resultados todos os meses, aferi-los semestralmente, se o cliente o faz semestralmente e, ainda assim está ansioso, uma ideia pode ser ter esta rotina apenas uma vez ao ano.

Aversão a perdas também pode ser reduzida por meio da educação dos clientes a respeito da natureza holística de seus portfólios, a qual inclui ativos como capital humano, imóveis, patrimônio financeiro, etc. Além disso, prover aos clientes uma política de investimentos bem escrita e a utilização o GBI são outras maneiras de atenuar os riscos de envelhecimento.

Por fim, a medida mais importante que um planejador financeiro pode tomar é aumentar a consciência das mudanças comportamentais e das perdas cognitivas dos clientes antes que elas comecem de fato a acontecer, assim, clientes poderão provavelmente tomar atitudes mais assertivas com o intuito de se proteger de erros financeiros associados à idade avançada, uma forma de fazer isso, por exemplo, é incluir a recomendação de produtos financeiros que criem iliquidez programada ou previnam resgates excessivos quando os clientes já não demonstrarem mais as habilidades numéricas necessárias.

About Hugo Paixão

Hugo de Lucena Paixão é bacharel em economia pela Universidade de Brasília, atua há 5 anos no mercado financeiro com passagens por instituições como Banco Modal e JGP Asset Management. Atualmente é analista da equipe técnica da Guide Life Planejamento Financeiro.

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